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“Mamãe, mamãe, acorda! É dia de corrida!” Com esse pedido pra lá de diferente, a empreendedora e doceira Valeska Amora, de 36 anos, acordou de um sonho para viver outro. Há pouco mais de um ano, mãe e filho correm juntos na orla de Fortaleza — com treinos adaptados à idade e ao fôlego de cada um.

A atividade física foi um divisor de águas na família. A história começou com Valeska, que convivia com a obesidade e fez cirurgia bariátrica para perder peso e recuperar a saúde.

Entre as mudanças de hábito que se seguiram à operação, ela descobriu o amor pela corrida e nunca mais deixou os exercícios de lado. Seu rebento seguiria seus passos — antes e depois dessa descoberta.

Em 2024, aos 11 anos de idade, Luca, o segundo de seus três filhos, também recebeu o diagnóstico de obesidade. “Nós já vínhamos notando que ele estava ganhando peso, principalmente depois da morte do meu pai”, conta a empreendedora. “Ele era muito apegado ao avô e começou a descontar a saudade e a ansiedade na comida.”

Ao fazer exames de rotina, a família tomou conhecimento de que ele não só estava acima do peso ideal para a idade como também com o colesterol alterado. Era preciso correr para reverter essa tendência — literalmente.

Nesta reportagem, você lerá sobre:

  • Obesidade também é desnutrição
  • O peso dos ultraprocessados na infância
  • Escolhas no mercado
  • A falta da tradição à mesa
  • Obesidade infantil no Brasil
  • O prato das crianças brasileiras
  • Sedentarismo na balança
  • A obesidade nas escolas
  • Conheça seus direitos
  • Tratamentos para a obesidade infantil
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+ Leia também: Pela primeira vez, mundo tem mais crianças com obesidade do que subnutridas

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Obesidade também é desnutrição

Luca compartilha uma realidade cada vez mais comum entre crianças e jovens, como revela o último relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

De acordo com o documento, pela primeira vez, o índice de obesidade na faixa de 5 a 19 anos de idade é maior do que o de desnutrição. Em todo o mundo, 9,4% das crianças estão com quilos a mais — ante 9,2% daquelas com baixo peso. Comparando com o ano 2000, saímos de um patamar de subnutrição de 13% e triplicamos o de excesso de peso, que era de 3%.

Apesar de representarem lados opostos da balança, ambos os cenários retratam um mesmo problema: a má nutrição. Já é um consenso que uma das causas para a pandemia de obesidade infantil é a ingestão de alimentos calóricos e pouco nutritivos.

“Os ultraprocessados estão substituindo cada vez mais os vegetais e as boas fontes de proteína, justamente quando a alimentação desempenha um papel crítico no crescimento das crianças”, afirmou Catherine Russell, diretora-executiva do Unicef.

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Ou seja, diferentemente do que muitos pais e avós pensam, uma criança acima do peso não está, necessariamente, bem nutrida.

“Produtos como salgadinhos, bolachas e doces carecem de vitaminas, proteínas e outros nutrientes necessários ao desenvolvimento infantil, ao contrário do que alegam muitas embalagens”, diz a pediatra Fabíola Suano, presidente do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

A fartura entre pacotes não passa batido pelo corpo: o peso decola, o colesterol e a pressão sobem, o diabetes aparece… Sim, problemas de gente grande.

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Casos de obesidade na infância e na adolescência triplicaram em duas décadas, segundo Unicef (Laura Luduvig/Estúdio Tigre/Veja Saúde)

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O peso dos ultraprocessados na infância

A passagem de um cenário dominado pelo risco de desnutrição para um em que a obesidade prevalece é chamada de transição nutricional — e, com exceção da África subsaariana e do sul da Ásia, todo o planeta passou ou está passando por isso.

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O problema afeta principalmente as regiões menos favorecidas economicamente. É o caso das ilhas do Pacífico, que, de acordo com o levantamento do Unicef, são as nações com os maiores índices de obesidade infantil. Por lá, quatro a cada dez crianças têm a condição.

O principal motivo é a substituição da dieta tradicional por produtos ultraprocessados, segundo diagnostica a entidade internacional.

“Esses são alimentos ricos em açúcar, sódio e gordura que ainda levam diversos aditivos, como corantes, aromatizantes, conservantes e emulsificantes, tornando-os hiperpalatáveis, ou seja, extremamente agradáveis ao paladar”, explica Suano, também professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

E é esse tipo de produto, abundante nas prateleiras do mercado, que invadiu o cardápio dos mais novos. Entre 2021 e 2024, pesquisadores do Projeto Global de Qualidade da Dieta, também do Unicef, perguntaram a milhares de adolescentes o que eles haviam comido no dia anterior.

No mundo todo, seis a cada dez jovens de 15 a 19 anos haviam consumido algum produto açucarado, além de 32% terem tomado refrigerante e 25% terem comido salgadinhos industrializados. São números da pesada!

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Na América Latina e no Caribe, os índices superam a média global, chegando a 83% dos adolescentes abusando dos doces, 55% tomando refris e 38% consumindo salgadinhos. Não à toa: esses produtos estão ao alcance deles desde pequenos — não apenas dentro de casa como também nas gôndolas.

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Consumo de ultraprocessados por jovens ao redor do mundo (Laura Luduvig/Estúdio Tigre/Veja Saúde)

Escolhas no mercado

Quem nunca viu (e comprou) guloseimas logo na entrada ou na fila do caixa do supermercado? Uma análise do Unicef concluiu que essa distribuição dos alimentos é influenciada pelo poder aquisitivo dos clientes.

Ao avaliar mercados de Brasil, Argentina, Chile, Costa Rica e México, a entidade observou que 62% das lojas voltadas à classe baixa exibiam pacotes de doces ultraprocessados na entrada, em prateleiras que crianças podiam alcançar, e nenhuma colocava frutas no mesmo local privilegiado.

Já em mercados da classe alta, apenas um quarto mantinha os produtos açucarados nessa posição e um quinto ostentava alimentos in natura.

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“Essas práticas exploram a vulnerabilidade econômica e aprofundam desigualdades no acesso a comidas nutritivas para as crianças”, conclui o documento oficial.

É como um círculo vicioso: os jovens que têm menos condições financeiras de, mais tarde, procurar tratamento para obesidade são aqueles mais expostos às tentações e aos fatores que predispõem ao problema, como alimentos de baixa qualidade.

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Alimentos expostos no mercado ao alcance das crianças variam de acordo com o poder aquisitivo da clientela. Classe baixa tem acesso a alimentos de pior qualidade desde a infância (Laura Luduvig/Estúdio Tigre/Veja Saúde)

+ Leia também: Obesidade infantil: destaques recentes da Academia Americana de Pediatria

A falta da tradição à mesa

Para além da falta do equilíbrio nutricional, essa mudança no padrão alimentar infantil escancara, na visão de alguns especialistas, outra carência: a de afeto. Isso porque esses itens levados à despensa e à lancheira são produzidos de forma totalmente industrial.

É impossível pegar a lista de ingredientes na embalagem e reproduzir a receita em casa — diferentemente dos preparos regionais e familiares, cuja tradição, as histórias e o toque pessoal que carregam alimentam os vínculos e os hábitos do lar.

O que antes era exceção — uma guloseima no fim de semana — virou regra, e vice-versa.

“Há cada vez menos tempo para as famílias cozinharem e o acesso aos ultraprocessados é fácil. Isso vem permitindo que os pratos locais sejam substituídos por comidas rápidas e calóricas, as mesmas que promovem o ganho de peso”, interpreta a engenheira de alimentos Priscila Diniz, coordenadora técnica da ACT Promoção da Saúde, organização não governamental que defende a criação de políticas públicas que ajudem a população a tomar decisões mais conscientes sobre a sua saúde, inclusive no prato.

Obesidade infantil no Brasil

No Brasil, quatro em cada 100 crianças e adolescentes estão desnutridas e excessivamente magras, número que tende a diminuir a cada ano, graças às políticas de combate à fome pelas quais o país é reconhecido mundialmente.

Por outro lado, cerca de 15 jovens a cada centena têm sobrepeso ou obesidade. Outros 18% estão em risco de entrar para essa estatística. Isso quer dizer que um terço da população de 0 a 19 anos (33%) está, em algum grau, acima do peso — e 63% estão em conformidade com a balança.

Esses são os dados parciais de 2025 disponibilizados pelo Panorama da Obesidade em Crianças e Adolescentes, do Instituto Desiderata, a partir do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) da rede pública de saúde.

Em poucas palavras, se estamos vencendo a desnutrição, a obesidade só vem piorando. 

+ Leia também: Em 20 anos, 75% dos adultos brasileiros terão obesidade e sobrepeso

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Entenda como a obesidade infantil pode afetar o corpo de crianças e adolescentes (Laura Luduvig/Estúdio Tigre/Veja Saúde)

O prato das crianças brasileiras

Lançando mão de uma lupa sobre os dados, vemos que as taxas de obesidade no Brasil variam bastante conforme a faixa etária. No geral, quanto mais novas são as crianças, menores são os índices de sobrepeso. E aquelas que recebem leite materno exclusivo durante os seis primeiros meses de vida, por exemplo, têm menor risco de obesidade, comparadas às que usam fórmula.

Atualmente, 57% dos bebês são amamentados pela mãe — um número que deveria ser mais alto. Após os 6 meses de idade, as crianças são introduzidas a uma variedade de alimentos — inclusive aos ultraprocessados. Até os 2 anos, 34% já consomem algum.

Segundo o Guia Alimentar Para Crianças Brasileiras, no entanto, é desaconselhável oferecer esse tipo de produto a essa faixa etária, já que ele atrapalha a formação de hábitos saudáveis. A lista inclui hambúrgueres, embutidos, refrigerantes, sucos de caixinha, macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote, bolachas recheadas e outras guloseimas.

O fato é que o percentual de crianças que consomem esses produtos consistentemente mais do que dobra ao chegar até os 4 anos: 77%. E é a partir daí que o hábito de comer ultraprocessados perdura até o fim da adolescência — uma realidade para oito entre dez jovens.

O lado bom é que, na mesma medida, conseguimos manter o consumo de feijão em até 84% dos lares brasileiros — sinal de que não perdemos nossas raízes.

“O feijão é um alimento ainda muito presente no prato do brasileiro, não importa a classe social, mas é preciso fortalecer políticas que facilitem o acesso aos alimentos in natura para que o povo continue dando preferência a eles”, avalia a nutricionista Ana Silvia de Sena, analista do Instituto Desiderata.

Mas a má alimentação não responde sozinha pela decolagem da obesidade infantil.

Sedentarismo na balança

Outro fator a pesar na balança é o sedentarismo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de oito em cada dez crianças e adolescentes brasileiros não fazem o mínimo de atividade física diária. Nessas horas, não adianta forçar a barra. É importante que a criança seja ouvida na hora de escolher os exercícios — lembrando que um pega-pega ao ar livre também entra na conta.

“Partiu do Luca o desejo de começar a correr. Isso tornou o processo muito mais fácil e prazeroso para todos nós”, relata Valeska. “Agora, até meu filho mais velho entrou para a equipe.” Botar o corpo para se mexer, comer melhor, brincar fora das telas…

Pode ser um desafio navegar em um ambiente tão obesogênico e sedutor. Mas todo esforço compensa em nome da saúde. “O excesso de peso está ligado a uma série de alterações metabólicas, além de poder sobrecarregar órgãos como coração, pulmões e rins e de prejudicar o crescimento ósseo”, explica a médica Louise Cominato, coordenadora do Departamento de Obesidade Infantil da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).

Isso sem contar os reflexos psicológicos e a maior propensão a quadros de ansiedade e depressão. E ainda tem o bullying.

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A obesidade nas escolas

Calcula-se que 70% dos adolescentes com obesidade já tenham sido constrangidos pelo excesso de peso, e, em 30% dos casos, a ofensa persistiu por mais de cinco anos. Esse cenário motivou a Abeso a lançar o e-book Bullying e Obesidade Infantil: Um Guia para Pais e Educadores, que pode ser acessado gratuitamente na internet.

Muito além do lar, as escolas também têm um papel a cumprir nessa história. “Elas são aliadas estratégicas no combate à obesidade infantil”, diz Cominato.

Além de prover conhecimento e lidar com a questão do bullying, é ali que boa parte das crianças se alimenta no dia a dia. Tudo vai depender, portanto, do que é oferecido a elas. O governo federal anunciou neste ano um plano de redução progressiva de ultraprocessados nas instituições públicas, parte do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Em 2025, a meta era diminuir a 15% a quantidade de processados e ultraprocessados nos colégios. Em 2026, o corte será 10%. O governo do Ceará se adiantou e assinou uma lei que proíbe tanto escolas particulares quanto públicas de ofertar produtos não saudáveis — as cantinas terão até 2027 para se adequar.

Conheça seus direitos

Ainda assim, as famílias seguem como o grande espelho para os jovens, especialmente na formação e manutenção dos hábitos. “A prevenção e o tratamento da obesidade começam em casa, com mudança do estilo de vida. E isso precisa envolver toda a família, que também pode estar acima do peso”, afirma o médico Luiz Claudio Gonçalves de Castro, coordenador do Departamento de Endocrinologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).

Se os pais se entopem de petiscos e refrigerantes, não dá para esperar que os filhos vivam à base de cenoura e água. Ocorre que focar apenas no comportamento dos pais para mudar esse cenário é insuficiente para colher bons resultados.

Eis a conclusão de um estudo publicado na renomada revista médica The Lancet, que avaliou programas que responsabilizam principalmente as ações dos pais pela prevenção da obesidade entre bebês de até 2 anos. Essa abordagem isolada não funciona.

Segundo a ampla análise do Unicef, é crítico que sejam elaboradas políticas públicas que façam com que a indústria desenvolva alimentos que, de fato, nutram as crianças.

Além disso, é preciso incentivar a produção local de alimentos saudáveis, conscientizar a população sobre seus direitos e combater a desigualdade social — só assim mais famílias poderão pagar por alimentos melhores.

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A agenda da Unicef para uma juventude bem nutrida (Laura Luduvig/Estúdio Tigre/Veja Saúde)

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Tratamentos para a obesidade infantil

Em alguns casos, perder peso na infância e na adolescência, assim como na fase adulta, é uma missão praticamente impossível só com dieta e atividade física.

Por isso ganhou força a discussão de que os mais jovens também precisam tomar remédios antiobesidade em algumas circunstâncias.

Na era das canetas, a liraglutida (vendida como Saxenda) e a semaglutida (sob o nome de Wegovy) foram aprovadas para o tratamento da obesidade a partir dos 12 anos.

As medicações, no entanto, não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) e as doses podem chegar a 2,5 mil reais mensais.

“Considerada em casos graves, a cirurgia bariátrica é também uma opção a partir dos 14 anos, quando outros tratamentos falham”, diz a endocrinologista Carolina Petry, da Santa Casa de Porto Alegre, referência no procedimento.

Para a maioria dos casos, porém, o diagnóstico e a intervenção precoces, bem como o engajamento familiar, bastam para virar essa página aos poucos. “É preciso ter resiliência, e isso nossas crianças têm de sobra”, defende Valeska, que, em quase dois anos, comemorou a perda de 14 quilos do filho.

Agora, Luca, o fã de corrida, já está com o peso ideal e com os exames de sangue normais. Um exemplo de que contornar a obesidade não é nenhum sonho distante.

 

Texto: Larissa Beani | Design e ilustração: Laura Luduvig/Estúdio Tigre

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