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No início, a relação começa intensa e cheia de promessas. E a empolgação da primeira conquista – vitória que sela o vínculo de esperança e entusiasmo –, poderá se manter até o fim da relação.

É como o vislumbre de um Éden, o paraíso perdido que você buscará insistente e diligentemente, até o momento em que, em sua vida, já transformada em terra arrasada, não haja mais espaço, nem recursos para insistir neste relacionamento.

Não, não estamos falando de uma história com um abusador narcisista. Tampouco da presença espúria de alguma superpotência mundial que queira subjugar um país menor cheio de recursos naturais, mas pouca defesa militar.

Estamos falando do enredo do que se produz na vida de alguém que aposta em jogos de azar, fenômeno que perturba a vida de milhões de pessoas numa escala e velocidade intensificadas pela digitalização de seus métodos.

Considerando dados publicados pelo relatório da Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental, 66% dos usuários de Bets apresentam comportamento de jogo de risco, número muito maior do que jogadores de outras modalidades de apostas. Em adolescentes e pessoas de baixa renda, a prevalência deste padrão é maior do que em outros grupos.

Poderíamos atribuir o risco elevado a um cérebro imaturo, com menos recursos para controle de impulsos, para o primeiro grupo. Mas, para os demais, a lógica perversa da falsa esperança estabelecida por essas plataformas – que prometem ganhos fáceis, mas só exaurem os apostadores de seus recursos –, é o que melhor explica a vulnerabilidade.

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Custos sociais e financeiros

Os impactos desse comportamento não se manifestam somente nas vidas desses indivíduos, mas afetam a sociedade como um todo. É comparável ao efeito deletério do tabaco e do álcool para o tecido social: comida deixa de ser comprada, aluguéis deixam de ser pagos, casamentos se desfazem.

Nesse ínterim, quadros depressivos, de ansiedade e suicídios crescem, com prejuízos calculados da ordem de R$38 bilhões por ano para o Brasil, segundo o dossiê “A Saúde dos brasileiros em jogo”, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps).

Entram nessa conta custos de tratamentos psiquiátricos, perdas com as doenças mentais e mortes. Segundo o Ieps, os gastos incluem:

  • R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio;
  • R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida decorrente de
    depressão;
  • R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para depressão;
  • R$ 30,6 bilhões de custos totais ligados à saúde (78,8% do total).
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Em contrapartida, no último ano, o país arrecadou R$6,8 bilhões com impostos do setor. A legislação atual destina apenas 1% da arrecadação sobre a receita bruta das empresas de apostas ao Ministério da Saúde. Parece muito, mas a conta não fecha.

Uma questão de saúde pública

Engana-se quem acha que esse é um problema somente de foro íntimo e que deveria ser cuidado apenas no consultório médico, como uma doença individual.

Transtornos de abuso – seja de álcool, tabaco, açúcares, compras, uso de telas, jogo de apostas ou do que mais possamos nos tornar reféns –, devem ser compreendidos, sobretudo, como um sintoma social, expressão de uma estrutura adoecida, que irrompe sobre os corpos dos que são mais susceptíveis.

As ações para o controle desse sofrimento passam por uma regulamentação forte do Estado para limitação da publicidade deste setor.

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+Leia também: Por que as bets são um problema de saúde pública urgente

Além disso, é preciso investir em campanhas de informação sobre os riscos ligados à prática de apostas, sistema de proteção e bloqueio do uso dessas plataformas por pessoas vulneráveis e maior destinação de recursos de impostos arrecadados para o setor da saúde.

Para as relações abusivas, recomenda-se o contato zero com o abusador, mas, até que se reconheça o abuso, a vítima geralmente é quem fica com a pecha de louca, descompensada, enfim, doente. Até quando, como sociedade, vamos ser permissivos com isso?

*Alexandre Valverde é médico psiquiatra, neurodivergente e apresenta o podcast “Fractais”, que trata de temas ligados às neurodivergências.

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