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O ator Henri Castelli sofreu duas convulsões nesta quarta-feira (14), após a primeira Prova do Líder de resistência do BBB 26. Depois de mais de dez horas na disputa, o ator passou mal e precisou ser levado para receber atendimento médico.

Durante a prova, o artista foi atendido pela equipe médica do BBB e encaminhado para um hospital, segundo a Globo. Mais tarde, ele retornou à casa, mas caiu novamente em convulsão, próximo à piscina.

Diante da emergência, outros participantes tentaram ajudá-lo até a chegada dos médicos do reality. O participante Brígido Neto relatou o momento de maior tensão: “Ele começou a ficar rígido e caiu. Eu coloquei a mão na boca dele e ele me mordeu”.

A conduta descrita é desaconselhada por especialistas. Apesar do receio comum de que a pessoa se engasgue ou morda a própria língua durante uma convulsão, especialistas alertam que colocar objetos — ou as mãos — dentro da boca pode causar ferimentos graves tanto em quem sofre a crise quanto em quem tenta ajudar.

A seguir, neurologistas ouvidos por VEJA SAÚDE explicam o que é uma convulsão, quais fatores podem desencadear esse tipo de crise e como agir corretamente diante de uma situação como essa.

O que pode causar uma convulsão?

Primeiramente, precisamos entender o que é uma convulsão. “A crise convulsiva é um evento clínico caracterizado por uma descarga elétrica anormal, excessiva e síncrona de neurônios no cérebro, que pode se manifestar de várias formas”, explica a médica Carolina Braga, neurologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Entre as possíveis manifestações dessa descarga, estão tremores, perda de consciência, “desligamentos” ou movimentos involuntários, dependendo da área do cérebro afetada.

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Já as causas para que ocorra essa desregulação cerebral também são diversas. Podem estar relacionadas a doenças neurológicas, como epilepsia, tumores cerebrais e acidente vascular cerebral (AVC), ou podem ocorrer de maneira isolada e aguda, quando situações específicas acabam servindo de gatilho.

A neurologista Liz Rebouças, da UPA Vila Santa Catarina, unidade pública gerenciada pelo Einstein Hospital Israelita, explica que a crise convulsiva pode ocorrer em resposta a fatores agudos como privação de sono, hipoglicemia (o que pode acontecer após longos períodos sem alimentação), febre, traumatismo craniano, infecção ou distúrbios metabólicos.

Além disso, distúrbios eletrolíticos e desidratação, uso de alguns medicamentos e situações de estresse fisiológico, como exaustão física, também podem levar ao quadro.

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Por que Henri Castelli teve uma convulsão?

Ainda não foi divulgado o motivo que levou o ator a ter uma crise convulsiva. No entanto, as neurologistas destacam que, no contexto da prova de resistência, existem diversos fatores fisiológicos que podem ter desencadeado o quadro.

O principal ponto a se considerar é que o ator permaneceu mais de dez horas em pé, realizando esforço físico repetitivo e sob privação de sono, alimentação e hidratação.

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De acordo com Carolina, a ausência de descanso adequado é um gatilho reconhecido para crises epilépticas, mas também para convulsões agudas em pessoas sem epilepsia diagnosticada.

“A falta de sono compromete a regulação da excitabilidade cortical [capacidade dos neurônios no córtex cerebral de responder a estímulos], facilitando descargas neuronais anormais”, explica.

Já a desidratação compromete o equilíbrio eletrolítico do organismo, principalmente os níveis de sódio, potássio e magnésio, todos essenciais para a estabilidade elétrica das membranas neuronais.

Além disso, caso o participante não tenha se alimentado adequadamente antes ou durante a prova, pode ter enfrentado uma queda importante nas taxas de glicose no sangue. Isso é preocupante porque a hipoglicemia pode comprometer o metabolismo cerebral.

“O cérebro é altamente dependente de glicose, e sua deficiência pode levar a sintomas neurológicos agudos, incluindo crises convulsivas”, explica a neurologista do Hospital Oswaldo Cruz.

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Por último, a exaustão física e o estresse emocional também podem ser considerado gatilhos. A exaustão física extrema também pode gerar alterações metabólicas sistêmicas.

“Imagino que o ambiente da prova representava um cenário de múltiplos estressores fisiológicos que, mesmo em indivíduos sem histórico neurológico prévio, podem levar a uma convulsão sintomática aguda, exigindo investigação clínica para afastar causas estruturais ou predisposições epilépticas”, avalia Carolina.

O que os médicos avaliam após uma crise?

Henri Castelli foi encaminhado para a avaliação médica. Com isso, deverá por exames para checar o estado geral de saúde e aferir sinais vitais, como pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura e glicemia.

Também é observada a recuperação do nível de consciência, a capacidade de responder a comandos e realizar movimentos sem dificuldade.

“A partir disso, os exames são individualizados, podendo incluir exames laboratoriais e, quando indicado, exames de imagem, como a tomografia de crânio”, explica Liz.

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Henri precisará deixar o BBB?

“Essa decisão depende da causa da convulsão e da evolução clínica do paciente“, explica Liz.

Se a convulsão for um episódio único, provocado por fatores como privação de sono ou exaustão, e todos os exames estiverem normais, o paciente pode retomar suas atividades após avaliação médica e recuperação completa. Porém, se houver recorrência, alterações no eletroencefalograma (EEG) ou lesão cerebral identificada, pode haver restrições.

Carolina lembra, ainda, que, em contextos como o BBB, além da avaliação médica, a decisão envolve também questões de segurança, responsabilidade jurídica e critérios da produção.

Em relação à recuperação, as médicas explicam que a evolução do quadro após uma convulsão também depende da causa do episódio e dos achados na avaliação clínica.

Em casos de convulsão aguda, provocada por um fator externo – como privação de sono, desidratação, hipoglicemia ou estresse físico intenso – o paciente pode retomar a sua rotina.

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“Nessas situações, uma vez resolvido o fator desencadeante, o risco de recorrência é baixo, e o paciente costuma se recuperar completamente, sem necessidade de tratamento contínuo”, explica Carolina.

No entanto, caso a investigação revele alguma alteração estrutural no cérebro, atividade epiléptica no eletroencefalograma (EEG), ou se o paciente apresentar novos episódios sem causa identificável, o risco de recorrência aumenta. Aí, pode ser necessário iniciar acompanhamento neurológico e, em algumas situações, o uso de medicação antiepiléptica.

O que fazer diante de um quadro de convulsão?

Como mostrado em reportagem de VEJA SAÚDE, a Epilepsy Society, ao pensar em primeiros socorros, a entidade britânica que atua pela conscientização em torno do tema, sugere lembrar da sigla CCC em situações do tipo: as letras são as iniciais em inglês para calm, cushion, call; em tradução livre, seria algo como “mantenha a calma, acolchoe e chame alguém”.

A mensagem é também a orientação básica para enfrentar uma convulsão em outra pessoa:

  • Não se desespere e faça o possível para que outros observadores ao redor também fiquem calmos;
  • Afaste quaisquer objetos que podem ferir quem está em meio à crise, remova os óculos caso a pessoa os utilize, e coloque algo para proteger a cabeça dela de batidas no chão (se não tiver uma almofada ou travesseiro, pode ser até uma peça de roupa ou suas próprias mãos);
  • Chame ajuda profissional, como o SAMU pelo número 192, ou acione o contato de emergência da pessoa, caso você saiba. Algumas pessoas com histórico conhecido de convulsões podem usar pulseiras que trazem essas informações; vale verificar.

Além desses cuidados, lembre-se sempre de ficar perto da pessoa durante a crise, mas sem restringir seus movimentos, e protegendo-a da interferência de curiosos ao redor. Caso você pegue uma crise convulsiva ainda no início, quando a pessoa não caiu no chão, tente ajudá-la a buscar uma posição confortável e segura.

No caso das chamadas epilepsias focais conscientes, em que o paciente fica em um estado de confusão, mas não chega a perder a consciência, ajude a guiar a pessoa para longe de uma situação de perigo. Faça isso de forma cuidadosa, sem restringir os movimentos nem tentar “despertá-la” do estupor.

O que não fazer

O senso comum consagrou algumas técnicas equivocadas para lidar com crises convulsivas, que devem ser evitadas. Lembre-se:

  • Nunca restrinja os movimentos da pessoa durante a crise convulsiva, o que pode machucá-la;
  • Não tente acordar a pessoa;
  • Não ofereça nenhum tipo de bebida ou alimento até a recuperação completa. Ingerir algo pode ocasionar engasgos e dificuldades respiratórias;
  • Mesmo diante dos temores de que a pessoa morda a língua, evite colocar algo na boca durante a crise, algo que pode ferir os dentes e causar problemas mais sérios.

Cuidados após a crise

Fique com a pessoa até ela estar recuperada e alerta novamente. Quando isso ocorrer, explique o que aconteceu e se ofereça para chamar algum conhecido ou levá-la a algum lugar com segurança.

Mantenha a atenção a quaisquer outros sinais de que a recuperação não ocorre da melhor maneira, como dificuldades respiratórias, algum ferimento que tenha ocorrido na queda ou um estado de confusão prolongado, mesmo após recobrar a consciência.

Caso não tenha feito isso antes, acione imediatamente um serviço de emergência, especialmente se a pessoa nunca teve um episódio prévio de convulsão ou se ela voltou a ter uma nova crise convulsiva logo na sequência.

Pessoas que nunca tiveram uma convulsão antes e não contam com um diagnóstico para o problema precisam passar por avaliação médica para entender a origem da crise.

O que diferencia uma convulsão de um quadro de epilepsia?

A epilepsia é uma doença neurológica crônica caracterizada por uma predisposição do cérebro a ter convulsões (crises epilépticas), que são, como visto, descargas elétricas anormais e temporárias que se manifestam em sintomas como tremores e perda de consciência.

De acordo com a International League Agans Epilepsy (ILAE), essas crises não configuram, por si só, um diagnóstico de epilepsia, uma vez que possuem causa claramente identificável e risco reduzido de recorrência se a causa for resolvida.

“Já a epilepsia é definida pela ILAE como uma condição cerebral caracterizada por uma predisposição duradoura a gerar crises epilépticas e pelas consequências neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais associadas a essa condição”, explica Carolina.

De acordo com a médica, o diagnóstico de epilepsia pode ser feito em três circunstâncias distintas:

  • Quando o paciente apresenta duas ou mais crises epilépticas não provocadas (ou reflexas), com intervalo superior a 24 horas entre elas;
  • Após uma única crise não provocada, desde que haja uma estimativa de risco de recorrência igual ou superior a 60% nos próximos 10 anos;
  • Ou quando o indivíduo se enquadra em uma síndrome epiléptica, mesmo que tenha apresentado apenas uma crise até o momento.

A confirmação é feita com base em evidências clínicas ou complementares, como alterações no eletroencefalograma  ou achados estruturais no cérebro identificados por neuroimagem, que indiquem o que é chamado de predisposição epileptogênica.

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