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A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo confirmou, nesta segunda-feira (12), o segundo caso de mpox causado pela nova cepa da doença, denominada clado Ib, no estado. Com o registro, também sobe para dois o número de pessoas já infectadas em todo o território nacional.
A nova cepa ganhou atenção da medicina internacional ao causar um surto na República Democrática do Congo (RDC) em 2024, seguindo como responsável por um alto número de casos na região.
De acordo com a pasta paulista, o paciente é um homem de 39 anos, morador de Portugal, que apresentou sintomas no fim de dezembro. Ele foi atendido no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e recebeu alta no dia seguinte, quando voltou ao exterior.
Como ele contraiu o vírus fora do Brasil, trata-se de um caso importado, o que significa que ainda não há circulação do vírus no território nacional documentada até agora.
Em 2025, o Brasil já havia notificado o primeiro caso dessa mesma cepa em uma mulher de 29 anos, que teve contato com um familiar vindo da RDC, país onde a cepa é endêmica.
Nos dois casos registrados, portanto, não houve confirmação de transmissão no território brasileiro. Mas, existe a chance de a nova doença se instaurar no país?
Para saber mais sobre o assunto, VEJA SAÚDE conversou com o infectologista Álvaro Furtado Costa, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e especialista em mpox. Confira:
O que é essa nova cepa e por que preocupa?
A doença, anteriormente conhecida como “varíola dos macacos”, é um quadro viral causado pelo vírus mpox (MPXV), um Orthopoxvirus relacionado à varíola tradicional. Existem dois grandes grupos genéticos: clado I (com subclados Ia e Ib) e clado II (com subclados IIa e IIb).
Entre 2022 e 2023, o mundo testemunhou um surto global da doença, causado pela cepa do clado IIb, que se espalhou para mais de 120 países, causando mais de 100 mil casos.
Segundo dados do Centro Nacional de Inteligência Epidemiológica e Vigilância Genômica, do Ministério da Saúde, até julho de 2025, data da última atualização, o Brasil havia contabilizado um total de 14.118 casos da doença. A maioria deles corresponde a esse período, quando o país se tornou um dos maiores em número de casos no mundo.
Já a clado I, especialmente a variante Ib, tem sido detectado predominantemente na África Central, sobretudo na RDC. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há um aumento de casos e mortes associados a essa linhagem na região, e essa variante tem características que geram maior alerta entre epidemiologistas do que as cepas que circularam globalmente em 2022.
“O clado Ib, teoricamente, pode ser um pouco mais grave do ponto de vista de desfecho clínico e de complicações”, explica Costa.
Qual o risco de disseminação no Brasil?
Como visto, até aqui, o vírus entrou no país por viajantes infectados, e não por transmissão local. Do ponto de vista epidemiológico, isso reduz — mas não elimina — o risco de um surto comunitário. De acordo com Costa, as chances são baixas, mas não nulas.
“O clado Ib, que já circula na África, tem potencial de transmissão pessoa a pessoa e, óbvio, isso pode acontecer”, responde sobre a possibilidade de o vírus se espalhar no Brasil.
Como ressalta o infectologista, no mundo globalizado existe sempre o potencial de que uma doença saia da região onde é predominante – neste caso, no continente africano – e se espalhe pelo mundo.
Foi isso que aconteceu em 2022. “A gente tinha uma doença concentrada na África que acabou se espalhando para mais de 120 países, com mais de 150 mil casos”, relembra o infectologista.
Ainda assim, o especialista ressalta que, para um novo espalhamento considerável, é necessária uma combinação de fatores. São questões como número suficiente de contatos próximos entre pessoas infectadas e suscetíveis, falhas na detecção de casos e lacunas nas medidas de saúde pública.
Depois de 2022, a doença ainda foi alvo de declarações de emergência global de interesse internacional, em 2023 e 2024. Mas houve uma queda na quantidade de casos em quase todos os continentes, com exceção do africano, e os alertas foram retirados.
Aí também mora um perigo. “A doença voltou a ser negligenciada“, diz Costa. “Ela ficou restrita ao continente africano e todos os investimentos em pesquisa diminuem quando você tem uma doença que reduziu muito a quantidade de casos”, comenta.
Mas, apesar do fim do surto no mundo, a OMS alerta que a varíola continua sendo uma ameaça atualmente. Segundo a entidade, “o aumento de casos na RDC e em outros países, causado pelos clados Ia e Ib, gerou preocupação”, disse em nota.
Aliás, em 2024, a entidade internacional incluiu o vírus na lista de micro-organismos com potencial de causar novas pandemias. “O grande temor da OMS é que esse clado I saia da República Democrática do Congo e se espalhe no mundo todo, que foi o que aconteceu com o clado II”, comenta o infectologista.
Portanto, ainda que o risco de um surto abrangente hoje no Brasil seja considerado baixo, a comunidade científica reforça a importância de monitoramento contínuo.
Sintomas e tratamento
De acordo com a OMS, a mpox causa sinais e sintomas que geralmente começam dentro de uma semana, mas podem surgir de um a 21 dias após a exposição. Normalmente, eles duram de duas a quatro semanas, mas podem persistir por mais tempo em pessoas com o sistema imunológico enfraquecido.
Os sintomas mais comuns são:
- irritação na pele;
- febre;
- dor de garganta;
- dor de cabeça;
- dores musculares;
- dor nas costas;
- baixa energia;
- gânglios linfáticos inchados.
No quesito tratamento, o objetivo é cuidar da erupção cutânea, controlar a dor e prevenir complicações. O suporte precoce é importante para ajudar a controlar os sintomas e evitar problemas adicionais.
Além disso, vacinação contra a varicela-músculo-opioide pode ajudar a prevenir a infecção e é recomendada para pessoas com alto risco de contrair a doença.
Vigilância e prevenção
Embora não hajam evidências de que o clado Ib esteja se espalhando no Brasil, as autoridades sanitárias devem ter manter vigilância ativa e estratégias de detecção rápida.
Além disso, o cuidado individual é importante. De acordo com a OMS, medidas de prevenção incluem isolamento de casos suspeitos, higiene das mãos e redução de contatos próximos. A entidade ressalta, ainda, que o uso de preservativo durante o sexo ajuda a reduzir o risco de contrair a doença, mas não impede a transmissão por contato pele a pele ou boca a pele.
A chegada de casos importados nos lembra que, em um mundo interconectado, a distância geográfica não protege completamente contra a disseminação de vírus emergentes.
Portanto, se você foi potencialmente exposto à doença, siga as orientações de saúde emitidas pelas autoridades sanitárias nacionais ou locais. Caso desenvolva sintomas, evite viajar, isole-se e procure atendimento médico imediatamente.
“Se os sintomas surgirem após a viagem, procure atendimento médico e informe os profissionais de saúde sobre seu histórico de viagens e outras informações que possam facilitar a avaliação médica”, indica a OMS.
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