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Nunca tivemos tanto conhecimento sobre o sono como agora. Sabemos quantas horas diárias são recomendadas, qual o papel da regularidade, como as telas influenciam o sono e por que dormir mal afeta a saúde física e mental.
A pesquisa científica sobre o descanso avançou notavelmente nas últimas décadas. E, no entanto, cada vez mais pessoas dormem mal em todo o mundo.
Na Espanha, por exemplo, essa realidade é visível. Quase metade da população reconhece não descansar bem. Vários estudos estimam que cerca de 40% das pessoas apresentam problemas de insônia e que aproximadamente 14% sofrem de insônia de maneira crônica.
Além disso, a tendência é de aumento. No início da década de 2010, a prevalência da insônia crônica era de cerca de 6%, menos da metade da atual, como mostravam estudos populacionais anteriores.
No Brasil, os dados também assustam. De acordo com estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), 72% da população sofre de doenças relacionadas ao sono, entre elas, a insônia.
Saber cada vez mais sobre o sono e dormir cada vez pior tornou-se um paradoxo.
Isso não se explica pela falta de informação ou pelo desinteresse individual, mas pela forma como organizamos o tempo, o trabalho e a vida cotidiana. Hoje, algo tão básico como descansar bem é cada vez mais difícil.
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Quando conhecimento não é suficiente
Durante anos, o sono foi abordado como uma questão individual. Se alguém dorme mal, presume-se que não segue as recomendações adequadas ou que mantém hábitos pouco saudáveis.
Essa abordagem tem um efeito claro: transfere a responsabilidade para a pessoa e deixa em segundo plano as condições sociais e laborais, que influenciam decisivamente o descanso.
Sabemos o que fazer para dormir melhor, mas nem sempre podemos fazer.
As evidências da psicologia do trabalho e da saúde ocupacional mostram quais fatores predizem uma pior qualidade do sono, mesmo entre pessoas bem informadas sobre hábitos saudáveis.
Estes fatores incluem jornadas longas, horários imprevisíveis e dificuldade em desligar mentalmente do trabalho.
A isso se soma uma mudança profunda na forma como o dia é estruturado. Em muitos casos, o dia de trabalho não tem mais um fim claro. E-mails, mensagens e tarefas pendentes prolongam a ativação mental até bem tarde da noite.
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Pesquisas sobre hiperconectividade e telepressão mostram que essa disponibilidade permanente está associada a maior ativação fisiológica e dificuldades para conciliar e manter o sono.
O corpo precisa de sinais claros de encerramento para iniciar o descanso. Quando a noite se torna uma extensão do dia, esse processo se torna mais difícil.
O problema é que as formas de trabalhar mudaram, mas a biologia não. O cérebro humano funciona em ciclos e precisa alternar entre ativação e recuperação.
Dormir não é uma pausa passiva, mas um processo ativo em que as memórias são consolidadas, as emoções são reguladas e a capacidade de pensar com clareza é restaurada. A falta de sono afeta consistentemente a atenção, a memória e a tomada de decisões.
A este problema se soma um fator menos visível, mas fundamental: vivemos cada vez mais afastados dos nossos ritmos biológicos naturais. O sono é regulado por relógios internos que se sincronizam com a luz, a regularidade e a alternância entre o dia e a noite.
Mas horários irregulares, exposição prolongada à luz artificial, trabalho noturno e jornadas que se estendem além do pôr do Sol geram um desequilíbrio circadiano persistente.
Dormir menos não significa apenas estar mais cansado, mas funcionar de outra maneira.
A esse desequilíbrio estrutural se soma um componente cultural. Em muitos ambientes, especialmente no trabalho, o cansaço se tornou normal e até mesmo valorizado. Dormir pouco continua sendo associado a comprometimento, responsabilidade e ambição.
Estudos, porém, mostram que a fadiga crônica não apenas reduz o desempenho. Ela também deteriora o clima de trabalho, a cooperação e a qualidade das decisões.
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O sono como uma responsabilidade individual e como negócio
Paralelamente, o discurso do bem-estar tem tendido a transformar o sono em um produto de consumo. Aplicativos, dispositivos de monitoramento, relógios que supostamente registram cada fase do descanso, colchões inteligentes e programas especializados prometem nos ajudar a dormir melhor.
Embora algumas dessas ferramentas possam ser úteis, muitas abordam o problema a partir de uma lógica individual. Essa abordagem se concentra em otimizar hábitos ou métricas, sem questionar as condições sociais e laborais que dificultam o descanso.
Em alguns casos, essa obsessão por medir e “fazer bem” pode até piorar o problema. Nos últimos anos, o termo “ortossomnia” foi cunhado para descrever a ansiedade por dormir corretamente, de acordo com os dados dos dispositivos.
Pessoas que dormem razoavelmente bem começam a se preocupar excessivamente com suas pontuações, fases e despertares. Isso aumenta a vigilância noturna e dificulta o descanso. O paradoxo é evidente: quanto mais se tenta controlar o sono, mais ele foge.
Todos esses discursos apresentam o sono como algo que se compra, se mede e se melhora, em vez de uma necessidade biológica básica que deve ser protegida.
Essa lógica reforça a ideia de que dormir bem é uma conquista pessoal, quando na verdade depende de como se organizam os tempos, as expectativas e as normas coletivas.
Essa combinação de fatores alimenta um paradoxo difícil de resolver com soluções rápidas. Tentamos corrigir com tecnologia um problema que criamos ao organizar mal o tempo e o trabalho.
Nenhum aplicativo pode compensar jornadas imprevisíveis, hiperconectividade constante e a impossibilidade real de se desconectar.
*Alfredo Rodríguez Muñoz é professor catedrático de Psicologia Social e das Organizações na Universidad Complutense de Madrid. Este artigo foi originalmente publicado em espanhol no portal The Conversation.
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