Ler Resumo

O caso do jovem Roberto Farias Thomaz, que foi resgatado na última semana após cinco dias desaparecido no Pico Paraná, chamou atenção para um risco que pode acometer pessoas que atravessaram períodos prolongados sem comer quando voltam a se alimentar: é a chamada síndrome de realimentação, que pode ser fatal.

Na ocasião do resgate, Roberto afirmou que passou oito dias sem comer, janela de tempo iniciada antes mesmo do período em que seu paradeiro se tornou desconhecido. Para sobreviver, consumiu apenas água da cachoeira cujo curso ele acompanhou em busca de um lugar habitado.

O que é a síndrome de realimentação e por que ela é tão perigosa

Embora não haja detalhes sobre a forma como o jovem perdido no Pico Paraná voltou a se alimentar, especialistas no tema logo alertaram que esse processo deveria ser feito aos poucos.

Pacientes de risco incluem pessoas com quadros de desnutrição grave, mas também aqueles que fizeram uso de apenas de fluidos intravenosos por cinco dias ou tiveram uma ingestão alimentar insuficiente por mais de sete dias.

A síndrome de realimentação é uma situação em que, ao incluir um grande volume de alimentos após um jejum prolongado, o organismo humano acaba passando por um desequilíbrio eletrolítico e metabólico, com impactos perigosos em vários sistemas vitais.

Dependendo da intensidade da síndrome, esse desequilíbrio acaba levando a uma série de complicações neurológicas, hematológicas e, principalmente, cardiopulmonares.

Continua após a publicidade

Um dos riscos mais imediatos é a parada cardíaca, o que acaba gerando um aparente contrassenso: ao salvar uma pessoa faminta, o mais recomendado não é oferecer uma grande refeição, ao menos nos primeiros momentos.

+Leia também: Por que comemos mesmo quando não temos fome?

A síndrome de realimentação também pode ocorrer em casos de desnutrição crônica. É um problema documentado desde a Antiguidade, atravessando séculos em que a fome era ainda mais comum, mas só ganhou seu nome atual após a Segunda Guerra Mundial – foi o momento em que vários casos começaram a ser percebidos entre prisioneiros de guerra e sobreviventes resgatados em campos de concentração

De forma chocante, parte deles acabava morrendo justamente logo após ter a oportunidade de fazer uma refeição farta após longos períodos mal alimentados.

Nas décadas seguintes, conforme as causas específicas do problema foram sendo compreendidas, protocolos de manejo foram criados para evitar esse desfecho perigoso.

Continua após a publicidade

Um ponto de atenção é que o problema não necessariamente se manifesta de imediato: os sinais de que algo está errado podem tardar até 72 horas após o momento em que a pessoa voltou a comer normalmente.

Como reintroduzir os alimentos sem impor perigos

A introdução súbita de alimentos pode levar a picos de insulina que, por sua vez, induzem a uma queda nos níveis séricos de eletrólitos como potássio, magnésio e fósforo, deficiências vitamínicas e retenção de sódio e fluidos.

Diante de uma pessoa que está há muitos dias sem comer, evite grandes refeições. A recomendação costuma ser que a contagem calórica não supere os 50% da necessidade diária, mas ainda mais importante é o cuidado com o tipo de alimentos: a glicose, em particular, tem os impactos mais severos, o que exige parcimônia com produtos ricos em carboidratos.

Como a própria ingestão de água pode levar a uma “diluição” dos minerais essenciais e intensificar os desequilíbrios, outra recomendação é que a hidratação seja feita em poucos goles, de forma espaçada.

Continua após a publicidade

Idealmente, a volta à alimentação normal deve ser feita sob estrito acompanhamento médico, com monitoramento dia a dia dos sinais vitais, ganho de peso e eventuais necessidades de suplementos, com um aumento gradual da ingestão de comida por um período de até cinco dias.

É comum a indicação de suplementar tiamina por até uma semana após o resgate, como forma de prevenir sequelas neurológicas. No entanto, a indicação depende das características de cada caso.

Informações que podem ajudar na recuperação incluem o total de dias em jejum e o peso corporal antes de passar pelo período de fome.

Compartilhe essa matéria via:

Fonte

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *