Eu ainda cursava Medicina quando, acompanhando um atendimento, o paciente informou que sentia dores na “tripa gaiteira”. Depois de alguma surpresa, eu e outros estudantes entendemos que, talvez por constrangimento, o homem usara expressão para se referir ao ânus.

Achamos graça do episódio, mas era um exemplo de desafios constantes na rotina de consultas de qualquer médico: entender o que o paciente quer dizer com as palavras que utiliza para descrever suas queixas e seus sintomas.

Podem ser termos regionais, usados em determinadas localidades e desconhecidos em outras, ou palavras amplamente presentes no vocabulário popular que na literacia médica têm significados diferentes ou simplesmente são vagos demais, como um genérico “mal-estar”.

Na minha área, que é aparelho digestivo, a lista inclui descrições como “enfastiado”, “empachado”, “empapuçado”, “queimação”, “ânsia” e “arroto”, entre muitos outros. Um bastante frequente e com “mil e uma utilidades” para pacientes descreverem seus sintomas é azia.

O que é azia do ponto de vista médico

Azia, do ponto de vista médico, é regurgitação, ou seja, o refluxo do líquido ou alimento já digerido do estômago para a boca. Para os pacientes, significa queimação (pirose, no vocabulário médico).

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E aí cabe ao profissional entender os sintomas que a palavra azia está representando, porque eles remeterão a condições clínicas diferentes.

Se a queixa de azia significa queimação na boca do estômago, a suspeita é de doenças pépticas, isto é, relacionadas à acidez do estômago, como gastrites e úlceras ou simplesmente uma “má digestão” (síndrome dispéptica). Nesses casos, o principal exame complementar para confirmar o diagnóstico é a endoscopia.

Já a queimação que ocorre atrás do esterno (o osso do tórax), e que no “mediquês” chamamos de pirose, pode ser indicativa de refluxo gastroesofágico. Além de endoscopia, o diagnóstico exigirá outros exames para pesquisar alterações de anatomia e pH.

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E tem ainda a “azia” que significa queimação em toda a região da barriga, sintoma que remete a distúrbios intestinais.

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Por que entender o paciente é essencial

Mais importante que nomes é a capacidade de interlocução do médico com seu paciente para compreender a linguagem dele para explicar seus sintomas e queixas. Como diz o ditado, é conversando que a gente se entende.

Esse entendimento por parte do médico é fundamental para oferecer o melhor diagnóstico, de maneira precisa e sem solicitar exames desnecessários, o que significa desperdício de recursos e de tempo do paciente.

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Quando procurar ajuda médica

E, voltando aos sintomas de “azia”, seja o que for que a palavra está representando, eles recomendam procurar um médico desde que se tornem frequentes ou prolongados e não apenas decorrentes de uma ou outra alimentação mais pesada.

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