Na roleta de debates das redes sociais, a não-monogamia tem um espaço cativo, ao lado de temas como responsabilidade afetiva, beleza padrão, love bombing e ghosting.

Desta vez, o assunto foi parar na academia. Calma, não estamos falando de pegação no vestiário. É a academia científica mesmo.

Um estudo publicado no The Journal of Sex Research revela que casais monogâmicos e não monogâmicos podem apresentar níveis semelhantes de satisfação e felicidade em suas relações e vidas sexuais. Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram 35 pesquisas, envolvendo mais de 24 mil pessoas dos Estados Unidos e da Europa.

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O artigo confronta a ideia predominante de que relacionamentos monogâmicos, aqueles em que há um compromisso afetivo e sexual exclusivo com uma única parceria, são inerentemente superiores em comparação com estruturas alternativas de vínculos.

“Tanto na monogamia quanto na não monogamia, a felicidade vai depender da capacidade de comunicação e dos termos acordados entre as partes envolvidas”, pontua o psicólogo Maycon Torres, vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Torres explica que a monogamia tem um combinado já estabelecido, que é a impossibilidade de estabelecer qualquer contato sexual ou afetivo com uma terceira pessoa.

“Com a não monogamia, surge um desafio devido à variedade de relações possíveis, fator que aumenta a complexidade do estabelecimento desses combinados”, acrescenta. Ele ressalta, no entanto, que o problema pode ser superado desde que haja um diálogo efetivo e o estabelecimento de regras de maneira clara e objetiva.

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Eu, tu, eles: a ascensão de novos formatos

As conexões monogâmicas, de fato, têm sido predominantes na história ocidental. Contudo, diversos novos arranjos emergiram, especialmente nas últimas décadas.

Essas configurações consensuais variam de relacionamentos abertos — que podem preservar a exclusividade romântica, mas não a sexual  ao poliamor, que é associado à possibilidade de mais de uma relação afetiva ao mesmo tempo.

A fuga do modelo “tradicional” tem sido associada a dois movimentos. O primeiro decorre das mudanças de comportamento naturais ocasionadas com a sucessão de gerações, com indivíduos buscando agir de maneira diferente daquela observada em seus antecessores. O segundo envolve a influência das redes sociais, que potencializaram a discussão e a adesão a novas formas de se relacionar.

Deixe minha monogamia em paz!

Por outro lado, há também uma rejeição a qualquer modelo que fuja ao 1 + 1 = 2. Para o professor da UFF, esse fenômeno é esperado, considerando que a monogamia é um padrão cultural que vem sendo construído e sustentado há centenas de anos.

“Invariavelmente, temos um processo de idealização desse tipo de relacionamento, ou seja, uma expectativa de se ter um parceiro fixo por toda a vida. Quando o indivíduo encontra pessoas que não têm essa ideia como regra, isso pode mexer com crenças e gerar até mesmo uma certa sensação de ataque”, explica Torres.

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Nesse contexto, aqueles com tendência monogâmica tendem a resistir a mudanças e a ver essas formas distintas de vínculos com certo rechaço.

“Há uma dificuldade de identificação com esse tipo de comportamento e tendência ao afastamento ou julgamento desse formato de relação como sendo uma experiência inválida”, resume o psicólogo.

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A infidelidade é um dos principais problemas das relações monogâmicas (Freepik/Divulgação)

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O mito da superioridade monogâmica

Os autores do artigo destacam que os relacionamentos a dois são frequentemente assumidos como aqueles que oferecem maior satisfação, intimidade, comprometimento, paixão e confiança do que os demais.

Além disso, essa crença generalizada, à qual eles denominam mito da superioridade da monogamia, é frequentemente reforçada por estereótipos e narrativas midiáticas.

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O novo estudo mostra que esse mito não necessariamente se sustenta. Especialistas hipotetizam que há um elemento-chave para explicar isso: a questão da traição.

“Pessoas em relacionamentos não monogâmicos geralmente têm acordos com seus parceiros, o que significa que a infidelidade pode não ser um fator tão relevante, enquanto é uma experiência naturalmente arrasadora para aqueles em relações monogâmicas”, afirma o autor principal Joel Anderson, professor e pesquisador da Universidade La Trobe, da Austrália, em comunicado.

O estudo revela ainda que a investigação detalhada de subgrupos mostra resultados semelhantes em diferentes demografias. Os recortes incluem participantes LGBTQIA+ e heterossexuais, bem como diferentes tipos de arranjos consensuais não monogâmicos, como relacionamentos abertos e poliamor, citados anteriormente.

“Esses resultados colocam em questão alguns dos equívocos comuns sobre a não-monogamia. Apesar de nossas descobertas demonstrarem níveis de satisfação comparáveis, pessoas em relacionamentos não monogâmicos frequentemente enfrentam estigmas, discriminação e barreiras para acessar assistência médica e reconhecimento legal”, reforça Anderson.

Os pesquisadores sugerem a necessidade de reflexão acerca de perspectivas mais inclusivas sobre diferentes estruturas de relacionamento, envolvendo nessa seara profissionais de saúde, terapeutas e formuladores de políticas.

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O psicólogo e professor da UFF enfatiza que os relacionamentos humanos são pautados em expectativas. No entanto, aquilo que uma pessoa espera da outra nunca será completamente satisfeito.

“Toda relação vai apresentar um componente de insatisfação, seja monogâmica ou seja não. O ponto é: como os indivíduos conseguem lidar com essa balança entre expectativa e satisfação. É aí que se encontra o desafio e, ao mesmo tempo, a chave para o sucesso de um relacionamento”, conclui.

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