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Em setembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, convocou uma coletiva de imprensa para disseminar desinformação sobre autismo. Na ocasião, o político associou o uso de paracetamol durante a gravidez ao aumento de casos do transtorno — afirmação que não tem respaldo científico.

É isso que, mais uma vez, pesquisadores concluem em um novo artigo publicado no renomado periódico The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women’s Health. Segundo o estudo, não há evidências de que o uso de paracetamol durante a gestação aumente o risco de autismo, transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) ou deficiências intelectuais.

A publicação é uma revisão sistemática e uma meta-análise de 43 estudos a respeito do tema, e ressalta que os ensaios mais rigorosos, como aqueles que comparam irmãos, evidenciam que a ingestão do medicamento não causa autismo ou outros transtornos neurológicos.

Interpretação dos dados

Os autores da revisão pontuam que estudos que associam paracetamol a distúrbios do neurodesenvolvimento são mais propensos a vieses e de pior qualidade científica.

“São estudos observacionais que dependem, principalmente, de dados autorrelatados, ou seja, da memória de quem está relatando, que não é algo tão preciso”, explica o psiquiatra Luiz Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Saúde Mental e Bem-estar, do Einstein Hospital Israelita. “Além do mais, esse tipo de pesquisa [observacional] não permite estabelecer uma relação de causalidade entre esses elementos, apenas de correlação”.

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A nova revisão sistemática e meta-análise deu prioridade a estudos também observacionais, mas com metodologias mais confiáveis, como a comparação entre irmãos.

“Estudos com irmãos oferecem fortes evidências nessa área, pois controlam a genética compartilhada e fatores ambientais compartilhados que podem estar associados ao risco de desenvolvimento neurológico”, escrevem pesquisadoras em um comentário também publicado pelo The Lancet sobre a nova análise. “A análise conjunta de estudos comparativos entre irmãos não encontrou associação entre a exposição pré-natal ao paracetamol e o transtorno do espectro autista.”

Fatores de risco

Para os autores, é preciso entender que o autismo e de outros transtornos do neurodesenvolvimento são condições multifatoriais, ou seja, na grande maioria dos casos, não é possível culpar um único elemento.

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“O transtorno do espectro autista (TEA) tem bastante componente genético e fatores ambientais precoces, que afetam a criança em idade muito baixa, no perinascimento [momento que abrange a gestação, o nascimento e os primeiros meses de vida]“, esclarece Zoldan.

Segundo lista o psiquiatra, os principais fatores de risco estabelecidos pela ciência são a genética (e, portanto, o histórico familiar), a idade avançada dos pais (especialmente a idade paterna), infecções maternas (principalmente aquelas acompanhadas de febre alta) e complicações obstétricas, como prematuridade extrema, baixo peso ao nascer e sofrimento fetal.

“Algumas condições maternas, como diabetes gestacional mal controlado, obesidade grave e doenças autoimunes também podem ser um fator, além da exposição ao álcool e drogas ilícitas”, cita o médico do Einstein Hospital Israelita.

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Paracetamol é seguro

A equipe internacional de pesquisadores que avaliou os estudos existentes sobre o assunto ressalta que o paracetamol é uma opção segura para ser usada na gravidez e que deixar de tratar uma condição dolorosa ou infecção na gestação pode, sim, ser um risco à saúde do feto.

“Mulheres grávidas usam paracetamol porque estão com dor, febre ou infecções — e essas condições, sim, são fatores de risco conhecidos para alterações do neurodesenvolvimento”, resume Zoldan. “O remédio não é a causa, mas o motivo pelo qual ele foi prescrito pode ser um dos fatores para o desenvolvimento de transtornos como o autismo, o TDAH, entre outros”, explica Zoldan.

Os pesquisadores também ressaltam que gestantes podem ser especialmente suscetíveis à desinformação. Portanto, elas devem estar sempre amparadas por profissionais que sigam as orientações de entidades nacionais e internacionais de segurança às mães e bebês e todos os órgãos assinam embaixo quando o assunto é segurança desse analgésico e antitérmico amplamente estudado.

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